segunda-feira, julho 20

Passa tempo

Como corrente de um rio
Que nunca volta à nascente
Passam os anos da vivência
Desta minha residência
Neste mundo duro e frio
Onde nada é permanente

Como a chuva fina e fria
Num céu nublado de outono
Despencam do calendário
As datas de aniversário
Que somadas, dia a dia
Resultam em dor, abandono

Mas, é o tempo inimigo?
Posso eu chama-lo assim?
Se cada dia que passa
Derrama na minha taça
Bebida que não consigo
Discernir se boa ou ruim?

Vão-se os anos, passam meses
Num compasso mais veloz
E ao me dar experiência
Amarra minha existência
A um passado que por vezes
Faz sumir a minha voz.

Tal qual a tristes gincanas
De quem termina primeiro
Numa atroz velocidade
Edifico a saudade
Com tijolos de semanas
Que vão passando ligeiro

Os dias então, não se conta
Quando um vai e outro vem
Dão a nítida impressão
De que o próprio coração
Neste balanço desmonta
E vai se embora também

Horas, minutos, segundos
Como a água de um sedento
Escorrendo entre os dedos
Expondo a claro meus medos
E terrores meus profundos
Afloram ao pensamento






Corre o tempo, vai sem pena
E quanto mais ele passa
Mais se chega minha sorte
Face a face encontro a morte
Pronta pra entrar em cena
E me levar como caça

Pra mim então fica claro
Por mais que lute na vida
Que sou sempre um moribundo
Igual a todos no mundo
Não sou melhor, nem mais caro
É a verdade doída

Mas temer o fim é insano
Pois a partir do instante
Em que recebi minha vida
Iniciei uma corrida
Onde cada segundo ou ano
A morte é uma constante

E se estou sempre morrendo
Por força do tempo extinto
A morte é bem conhecida
Sei mais dela que da vida
Pois já esta acontecendo
Agora, e eu nem a sinto

Se este é mesmo o tormento
Do tempo, o que aterroriza
Porque não vê-lo de frente
E aí talvez simplesmente
Vivendo momento a momento
O medo do tempo ameniza

Porque o tempo está passando
Ninguém o pode deter
Assim, não o jogue fora
E a partir de agora
Em vez de o tempo ir contando
É melhor passar a viver

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