terça-feira, julho 21

Mil faces

Outro dia olhei no espelho

Confesso, causou-me espanto,


Não pude crer no que via


Nem descrevo o que sentia


Não que me visse mais velho


Ou mais horrível, nem tanto.





Não via nenhuma ruga


Daquelas que já conheço


Só que faltava o sorriso


Pensei “me falta o juízo”.


O real já me refuga”


E isso foi só o começo





Pois você nem imagina


Quão grande o meu desespero


Quando aquela estranha imagem


Como trágica miragem


Sumiu detrás da cortina


Pra retornar bem ligeiro





Só que nesse seu retorno


Nova face ela trazia


Horrenda, terrível, dura,


Com ar de maldade pura


Mas mantinha o meu contorno


E comigo se parecia





Novamente outro susto


Um rosto bem conhecido


Mas que tanto mal traz consigo


Que confesso, meu amigo,


Foi somente a muito custo


Que encarei o refletido





Mas quanto mais males vejo


No meu estranho reflexo


Muito mais o reconheço


Parece comigo do avesso


E pra entender eu pelejo


Tal enigma tão complexo





Do avesso, é o que digo?


Porque não fora de centro?


Se aquilo que vejo no quadro


Parece fora de esquadro


Será porque não consigo


Olhar como sou por dentro?




A figura se agiganta


Quanto mais eu fujo dela


Temo olha-la de frente


Descobrir que não sou gente


Não sou animal nem planta


Mas só uma imagem na tela





Mas porque vivo a fugir


De ver tal coisa medonha?


Porque não olho estas faces


E vejo em mim meus disfarces


Sem medo engano ou porvir


Sem mágoa dor ou vergonha?





Mais outro rosto vem vindo


Já me acostumo a este fato


E identifico os atores


Meus males, desejos, amores,


Volta-me outro sorrindo


Mais simpático retrato





Quanto mais faces eu vejo


Mais me obrigo a entender


Que ao viver esta vida


De luta, suada, sofrida,


Meus horrores, meu desejo,


Me fazem o que sou, eu ser.





Do meu passado fugindo


Jamais desejo encontra-lo


A dor que ele retrata


Por pouco que não me mata


No devaneio que lhes falo,


Nestas mil faces surgindo





Uma a uma reconheço


Ao surgir de imediato,


Sem fazer qualquer empenho


De mim enxergo o desenho


Do que sou, desde o começo


Meu perfil fiel, exato.





E ao me ver sem disfarces


Sem fugir a dor alguma


Compreendo com certeza


O segredo da beleza


De em lugar destas mil faces


Viver somente com uma.

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