terça-feira, julho 21

O urubu e o condor

Voa ave altaneira


Corta este céu elegante


Lança sombra pelo espaço


Que o tempo não traz cansaço


A visão tão prazenteira


Deste teu vôo deslumbrante






Xô daqui ave agourenta


De ti só quero distância


Por favor, vai logo embora;


Tua presença me apavora


Tal visão ninguém agüenta


Vieste só de implicância?






Mas porque tanto descaso,


Porque todos mesmo tu


Culpam-me, de a natureza,


Ter me feito sem beleza


Tenho dolo por acaso


Em ter nascido urubu?








Sou urubu com orgulho


E me escuta, por favor,


Que te direi quem eu sou


Do que gosto, aonde vou;


Porque não caço ou mergulho


Porque urubu, não condor.






Não vivo alto nos Andes


Não vôo pra me exibir


Não tenho necessidade


Vivo mesmo é na cidade


Não importa onde me mandes


Vou continuar a existir






De carniça é que eu gosto


Carne podre, gente morta,


Por isso vivo contigo


Sou muito mais seu amigo


Do que o condor, eu aposto;


Estou sempre à tua porta






O condor vive distante,


Não está no teu dia a dia


Não consome do teu lixo


E embora mais belo bicho


Não é companheiro constante


Não tem por ti simpatia






Sou bem mais útil a ti


Do que o condor peruano


Não importam tuas crenças,


Afasto de ti mil doenças


Que se espalham por aí


No lixo do ser humano.






Sendo assim não me desprezes,


Nem me trates com desdém;


Pois se eu sou tão asqueroso


Um ser nojento, horroroso,


É porque vivo de fezes


E elas vêem de ti também.






E tu não és diferente


De mim nesta tua sina


Quando mentes, quando lutas,


Quando vives em disputas,


Imaginas que és gente,


Mas és ave de rapina.

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