Voa ave altaneira
Corta este céu elegante
Lança sombra pelo espaço
Que o tempo não traz cansaço
A visão tão prazenteira
Deste teu vôo deslumbrante
Xô daqui ave agourenta
De ti só quero distância
Por favor, vai logo embora;
Tua presença me apavora
Tal visão ninguém agüenta
Vieste só de implicância?
Mas porque tanto descaso,
Porque todos mesmo tu
Culpam-me, de a natureza,
Ter me feito sem beleza
Tenho dolo por acaso
Em ter nascido urubu?
Sou urubu com orgulho
E me escuta, por favor,
Que te direi quem eu sou
Do que gosto, aonde vou;
Porque não caço ou mergulho
Porque urubu, não condor.
Não vivo alto nos Andes
Não vôo pra me exibir
Não tenho necessidade
Vivo mesmo é na cidade
Não importa onde me mandes
Vou continuar a existir
De carniça é que eu gosto
Carne podre, gente morta,
Por isso vivo contigo
Sou muito mais seu amigo
Do que o condor, eu aposto;
Estou sempre à tua porta
O condor vive distante,
Não está no teu dia a dia
Não consome do teu lixo
E embora mais belo bicho
Não é companheiro constante
Não tem por ti simpatia
Sou bem mais útil a ti
Do que o condor peruano
Não importam tuas crenças,
Afasto de ti mil doenças
Que se espalham por aí
No lixo do ser humano.
Sendo assim não me desprezes,
Nem me trates com desdém;
Pois se eu sou tão asqueroso
Um ser nojento, horroroso,
É porque vivo de fezes
E elas vêem de ti também.
E tu não és diferente
De mim nesta tua sina
Quando mentes, quando lutas,
Quando vives em disputas,
Imaginas que és gente,
Mas és ave de rapina.
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