Você pensa que é o que?
Você não é
Você não pensa
Pensa que é o que pensa?
Isso é o que você pensa
O que é que você pensa?
Você pensa que é o que pensa
Você não é o que pensa que é
Pensa que é
Mas não é,
Só pensa:
É o que é
Você pensa que é o que?
Você não é
Você não pensa
Pensa que é o que pensa?
Isso é o que você pensa
O que é que você pensa?
Você pensa que é o que pensa
Você não é o que pensa que é
Pensa que é
Mas não é,
Só pensa:
É o que é
Cumpro o doloroso dever
De informar o falecimento.
Que alguém neste momento
Morreu de tanto sofrer
Morreu de angustia o sujeito
Pois vimos seu coração
Sufocado por uma mão
De quem é? Não há suspeito
Foi embora num momento
Enquanto se apaixonava
Pois a dor não suportava
Mas deixou em testamento:
“Eu morri desta maneira
Morri de amor, de tristeza
De saudades, de fraqueza,
Me tornei mera poeira
Deixo a você minha herança
Nem a morte isto invalida
Dou por você minha vida
Meu amor, sonho e esperança”
Com licença de outros tantos
Que com mais propriedade
Descrevem a realidade
A expressam em seus cantos
Quero dizer no momento
Da vida o que compreendo
O que aflora ao pensamento
Sem floreio, retoque, remendo.
Observe a simples planta
E a beleza que ela traz
Ao lhe dar nome você a faz
Tornar-se algo que encanta,
Ou algo que só suja a rua
Ou sombra pra refrigério
Quer que ela seja só sua
Muitos em um, um mistério.
A planta lhe trás lembranças
De outras tantas iguais,
Umas menos, outras mais,
Desejos, sonhos, vinganças.
A árvore está carregada
Não de folhas, frutos e flores;
Mas da experiência passada
De lutas, ódios, amores.
A realidade revela
Que uma casa, por exemplo,
Não é sepulcro nem templo,
Mas é coisa bem singela
Uma casa é uma casa!
Quatro paredes apenas,
Que o pensamento defasa,
Decorando de dores e penas.
Uma casa não é um lar
Isto é mais do que evidente
O lar se cria na mente
Em qualquer canto ou lugar
Parte da casa ou o total
Parece mais importante
Se num pequeno instante
Se torna fundamental
Um quarto é igual a todos
Na luz ou na escuridão,
Tenha ele cama ou não
Igual de todos os modos
Se o pensar interfere
Enche o quarto de lembranças
Recria mais esperanças
No que cada peça sugere.
Está na casa o defeito?
No quarto ou na cadeira?
Se eu passo a vida inteira
Pensando a seu respeito?
O engano é meu somente
Que não vejo a realidade
E meus olhos simplesmente,
Usam óculos de saudade.
Voa ave altaneira
Corta este céu elegante
Lança sombra pelo espaço
Que o tempo não traz cansaço
A visão tão prazenteira
Deste teu vôo deslumbrante
Xô daqui ave agourenta
De ti só quero distância
Por favor, vai logo embora;
Tua presença me apavora
Tal visão ninguém agüenta
Vieste só de implicância?
Mas porque tanto descaso,
Porque todos mesmo tu
Culpam-me, de a natureza,
Ter me feito sem beleza
Tenho dolo por acaso
Em ter nascido urubu?
Sou urubu com orgulho
E me escuta, por favor,
Que te direi quem eu sou
Do que gosto, aonde vou;
Porque não caço ou mergulho
Porque urubu, não condor.
Não vivo alto nos Andes
Não vôo pra me exibir
Não tenho necessidade
Vivo mesmo é na cidade
Não importa onde me mandes
Vou continuar a existir
De carniça é que eu gosto
Carne podre, gente morta,
Por isso vivo contigo
Sou muito mais seu amigo
Do que o condor, eu aposto;
Estou sempre à tua porta
O condor vive distante,
Não está no teu dia a dia
Não consome do teu lixo
E embora mais belo bicho
Não é companheiro constante
Não tem por ti simpatia
Sou bem mais útil a ti
Do que o condor peruano
Não importam tuas crenças,
Afasto de ti mil doenças
Que se espalham por aí
No lixo do ser humano.
Sendo assim não me desprezes,
Nem me trates com desdém;
Pois se eu sou tão asqueroso
Um ser nojento, horroroso,
É porque vivo de fezes
E elas vêem de ti também.
E tu não és diferente
De mim nesta tua sina
Quando mentes, quando lutas,
Quando vives em disputas,
Imaginas que és gente,
Mas és ave de rapina.
Confesso, causou-me espanto,
Não pude crer no que via
Nem descrevo o que sentia
Não que me visse mais velho
Ou mais horrível, nem tanto.
Não via nenhuma ruga
Daquelas que já conheço
Só que faltava o sorriso
Pensei “me falta o juízo”.
O real já me refuga”
E isso foi só o começo
Pois você nem imagina
Quão grande o meu desespero
Quando aquela estranha imagem
Como trágica miragem
Sumiu detrás da cortina
Pra retornar bem ligeiro
Só que nesse seu retorno
Nova face ela trazia
Horrenda, terrível, dura,
Com ar de maldade pura
Mas mantinha o meu contorno
E comigo se parecia
Novamente outro susto
Um rosto bem conhecido
Mas que tanto mal traz consigo
Que confesso, meu amigo,
Foi somente a muito custo
Que encarei o refletido
Mas quanto mais males vejo
No meu estranho reflexo
Muito mais o reconheço
Parece comigo do avesso
E pra entender eu pelejo
Tal enigma tão complexo
Do avesso, é o que digo?
Porque não fora de centro?
Se aquilo que vejo no quadro
Parece fora de esquadro
Será porque não consigo
Olhar como sou por dentro?
A figura se agiganta
Quanto mais eu fujo dela
Temo olha-la de frente
Descobrir que não sou gente
Não sou animal nem planta
Mas só uma imagem na tela
Mas porque vivo a fugir
De ver tal coisa medonha?
Porque não olho estas faces
E vejo em mim meus disfarces
Sem medo engano ou porvir
Sem mágoa dor ou vergonha?
Mais outro rosto vem vindo
Já me acostumo a este fato
E identifico os atores
Meus males, desejos, amores,
Volta-me outro sorrindo
Mais simpático retrato
Quanto mais faces eu vejo
Mais me obrigo a entender
Que ao viver esta vida
De luta, suada, sofrida,
Meus horrores, meu desejo,
Me fazem o que sou, eu ser.
Do meu passado fugindo
Jamais desejo encontra-lo
A dor que ele retrata
Por pouco que não me mata
No devaneio que lhes falo,
Nestas mil faces surgindo
Uma a uma reconheço
Ao surgir de imediato,
Sem fazer qualquer empenho
De mim enxergo o desenho
Do que sou, desde o começo
Meu perfil fiel, exato.
E ao me ver sem disfarces
Sem fugir a dor alguma
Compreendo com certeza
O segredo da beleza
De em lugar destas mil faces
Viver somente com uma.
Ela tem mistérios como poucos
Dos quais amantes, poetas e loucos
Conseguem tão bem decifrar
Linda, tranquila, pequena
Brilhante que no breu flutua
Insensivelmente serena
Reluzindo na noite, a lua
Me torna sempre a lembrança
De tristes amores sem esperança
Por alguem que como ela
Bela, iluminada, brilhante
É igualmente encantadora
É inalcançavelmente distante
Por favor me deixa chorar
Preciso esgotar
Toda a dor da minha alma
Quero chorar até afogar minha esperança
Esse coração que cansado e amargurado
Necessita expulsar cada lagrima que tem guardado
Tenho que rasgar este velho coração
Até que ele não consiga mais reter uma gota de amor
Porque amar é uma contradição
Suas alegrias são a outra face do desespero
Assim viver sem amar é o que espero
Não quero mais amar...
Diz uma antiga canção
O amor me deixa insuportavelmente feliz
E maravilhosamente deprimido
Preciso me sentir querido
Mais que nunca é insuportável ser sozinho
Mas também preciso de ar
Tenho de viver, respirar
Estou condenado à vida
E preciso companhia
Não como um cãozinho na coleira
Mas de um viajante que segue igual caminho
Se eu não chorar tudo que preciso
Não afogar a dor nas lagrimas do coração,
Decerto vou perder o juízo
Todo sentimento terá sido em vão
Mas tenho medo, muito medo
Não me deixe chorar sozinho
Me mostre uma saída, um caminho
Tenho de sair desse deserto
Pelo amor de Deus, fique por perto
Me veja chorar e fique aqui
Do seu carinho, não desisti.
Me escuta desta vez por favor;
Sei que sou contraditório
Mas já esgotei o meu repertorio
De argumentos tentando provar o meu amor
Se vai longe divagando
Que bom é então divagar
Pois se é neste devaneio
Que lhe encontro bem no meio
Que eu passe a vida sonhando
Divagando pra lhe amar