sexta-feira, julho 24

Ser ou não ser?


Você pensa que é o que?


Você não é


Você não pensa


Pensa que é o que pensa?


Isso é o que você pensa


O que é que você pensa?


Você pensa que é o que pensa


Você não é o que pensa que é


Pensa que é


Mas não é,


Só pensa:


É o que é

terça-feira, julho 21

Nota de falecimento

Cumpro o doloroso dever


De informar o falecimento.


Que alguém neste momento


Morreu de tanto sofrer



Morreu de angustia o sujeito


Pois vimos seu coração


Sufocado por uma mão


De quem é? Não há suspeito



Foi embora num momento


Enquanto se apaixonava


Pois a dor não suportava


Mas deixou em testamento:



“Eu morri desta maneira


Morri de amor, de tristeza


De saudades, de fraqueza,


Me tornei mera poeira



Deixo a você minha herança


Nem a morte isto invalida


Dou por você minha vida


Meu amor, sonho e esperança”

Tá tudo claro

I CAN SEE CLEARLY NOW

I can see clearly now the rain is gone.
I can see all obstacles in my way.
Gone are the dark clouds that had me blind.
It's gonna be a bright (bright)
bright (bright) sunshine day.
It's gonna be a bright (bright)
bright (bright) sunshine day.


Oh yes, I can make it now the pain is gone.
All of the bad feelings have disappeared.
Here is the rainbow I've been praying for.
It's gonna be a bright (bright)
bright (bright) sunshine day.


(ooh...) Look all around, there's nothing but blue skies.
Look straight ahead, there's nothing but blue skies.


I can see clearly now the rain is gone.
I can see all obstacles in my way.
Here's the rainbow I've been praying for.
It's gonna be a bright (bright)
bright (bright) sunshine day.
It's gonna be a bright (bright)
bright (bright) sunshine day.
Real, real, real, real bright (bright) bright (bright)
sunshine day.
Yeah, hey, it's gonna be a bright (bright) bright (bright)
sunshine day.



Tradução
Posso ver claramente agora que a chuva se foi
Consigo ver todos os obstáculos em meu caminho
As nuvens negras que me cegavam foram embora
Será um brilhante dia de sol
Será um brilhante dia de sol


Agora sim...a dor foi embora
Todos os sentimentos ruins desapareceram
Aqui está o arco-iris que tenho pedido
Será um brilhante dia de sol
Será um brilhante dia de sol


Olhe à sua volta....não há nada além do céu azul
Olhe em frente, não há nada além do céu azul


Posso ver claramente agora que a chuva se foi
Consigo ver todos os obstáculos em meu caminho
Aqui está o arco-iris que tenho pedido
Será um brilhante dia de sol!
Será um brilhante dia de sol

Um homem de verdade

Quero abrir um parêntesis pra falar um pouco de uma pessoa.
Um ser humano distinto, diferente, especial.
Alguem a quem a vida tentou impedir que existisse. que lhe disse:
Não, você é inviável, acomode-se num canto e espere a hora de ir embora.
Mas ele respondeu: "Não, comigo isso não cola".
E contra todos os temporais da existência, doenças, infortúnios, maldições,
Colocou o seu amor e sua fé como escudo.
E indo muito além de todos nós, foi capaz de tornar-se maior que a dor,
distribuindo amor e colocando-se a disposição, dando um exemplo
para aqueles que em virtude de suas melhores condições, poderiam fazer
o que ele fez, e não o fazem.
Natanael Joel Andrade é seu nome. Sei que dificilmente ele leria o que
estou escrevendo, ele tem muito o que fazer, nem sei por anda anda esse amigo. Você sabe?
Aliás sei sim, ele está no coração dos muitos amigos que construiu, como eu.
Estou colocando esse comentário porque sempre que ouço essa música
lembro da figura impar desse homem de verdade, que espero algum dia encontrar
novamente, nem que seja no novo mundo.
Espero que seja antes.
Você o conhece? Diga que lembrei dele, que lembro sempre...



Meu irmão

(Toquinho)

Meu irmão faz muito tempo faz que eu não te canto uma canção
Que eu não te conto uma aventura um sonho uma ilusão
Que eu não me sento calmamente junto com você
O tempo passa meu irmão
Comigo os dias normalmente cumprem sua função
Entre sinuca futebol amor e um violão
Mas quando o tempo escurece vem os temporais
E nem blasfêmias crenças preces não ajudam mais
E a gente perde a paz
Ai eu lembro de você e essa lembrança me agiganta
Me faz vencer a dor e quando eu caio me levanta
Me faz conter o tempo e põe o mundo inteiro em minhas mãos
Você meu grande herói mais poderoso que o inimigo
Você constante amigo meu distante companheiro
Você que o tempo inteiro não tem medo do perigo não

Smile

Composição: Charles Chaplin

Smile,
Tough your heart is aching
Smile,
Even though it's breaking,
When there are clouds in the sky, you'll get by
If you smile
Through your fears and sorrow, smile
And maybe tomorrow
You'll see the sun come shining through for you.
Light up your face with gladness,
Hide ev'ry trace of sadness,
Altho' a tear may be ever so near,
That's the time you must keep on trying,
Smile,
What's the use of crying,
You'll find that life is still worhwhile,
If you just smile.



SORRIA


Sorria, mesmo que seu coração esteja doendo
Sorria, ainda que ele esteja partido
(ou) quando há nuvens no céu
Você sobreviverá...

Se você apenas sorrir
Através do seu medo e tristeza
Sorria e talvez amanhã
Você descobrirá que a vida ainda vale a pena

Se você simplesmente sorrir...

Ilumine sua face com alegria
Esconda todo rastro de tristeza
Embora uma lágrima possa estar tão próxima
Este é o momento que você tem que continuar tentando
Sorria, pra que serve o choro?
Você descobrirá que a vida ainda vale a pena
Se você simplesmente sorrir...

Meu amigo, meu herói

Oh meu amigo, meu herói

Oh como dói saber que a ti também corrói

A dor da solidão

Oh meu amado, minha luz

Descansa tua mão cansada sobre a minha

Sobre a minha mão

A força do universo não te deixará

O lume das estrelas te alumiará

Na casa do meu coração pequeno

No quarto do meu coração menino

No canto do meu coração espero

Agasalhar-te a ilusão

Oh meu amigo, meu herói

Oh como dói

Oh como dói

Oh como dói

(composição Gilberto Gil)

Traduzir-se

(Ferreira Gullar)

Uma parte de mim é todo mundo;
outra parte é ninguém: fundo sem fundo.
Uma parte de mim é multidão;
outra parte estranheza e solidão.
Uma parte de mim pesa, pondera;
outra parte delira.
Uma parte de mim almoça e janta;
outra parte se espanta.
Uma parte de mim é permanente;
outra parte se sabe de repente.
Uma parte de mim é só vertigem;
outra parte, linguagem.
Traduzir uma parte na outra parte
- que é uma questão de vida ou morte - será arte?

Zumbi

Vou pela vida introspecto
Nada me afeta ou me abala
Nem do jornal nesta sala
Me interessa algum aspecto
Política, guerra, crime,
ou vitória de algum time

O filho passa chorando
A roupa suja no chão
Nada mais chama a atenção
Nada de novo chegando
Tudo é hábito, costume
Neste tédio que me assume

Faz a vida algum sentido?
Pode ser coisa normal
viver como um vegetal
pra ser cortado e cozido?
Podem bater, me agredir
Nenhuma reação vai vir

Um boneco que se move
Sem desejo, dor ou medo
Que não tem nenhum segredo
Não se ira ou se comove.
Estou vivo? Sim, respiro
como, caminho e suspiro

Até que funciona a mente
Embora meu pensamento
não traduza em movimento
porque o peito nada sente.
Nunca há motivação
Pois me falta o coração.

Não consigo discernir
Se estou vivo ou se estou morto
Busco somente o conforto
De não precisar ter de agir
Só obedeço ao comando
de a vida ir levando

E se não discirno também
Se vivo ou se sobrevivo,
Sou zumbí, um morto-vivo
Um meio-zero, um ninguém
Não somo nem subtraio
Se estou aqui ou se saio

Mas se existe alguma prova
Que a mente não está vazia
Esta está na poesia
Que cria em mim alma nova
Pois assim vou escrevendo
pra poder seguir vivendo.

Se eu tivesse um amigo

Se eu tivesse um amigo
Decerto lhe contaria
Tudo que ocorre comigo
O bem e o mal de cada dia

Um amigo a quem pudesse
Abrir meu peito sem medo
Alguem que nunca dissesse
O que contasse em segredo

Tenho muito o que dizer
Mas a qualquer um não digo
Expor a tantos meu ser
É um risco, grande perigo

Mas um amigo, se houvesse
Decerto compreenderia
E de mim o que soubesse
A ninguem delataria

Poderia abrir meu peito,
Falar de ocultos amores
De algum desejo insuspeito
Dos mais secretos temores

E assim me revelando
A alguem tão amistoso
Talvez me visse chorando
Ou meu lado mais teimoso

Um amigo como espelho
Faria ver com certeza
Quanto estou ficando velho
Por permitir a tristeza

Um amigo me diria:
" Seja você sem receio
E descubra a alegria
de não viver pelo meio"

Encontrei alguem assim
Que não me trai nem me cobra
Um amigo bom, enfim
Um pau para toda obra

Pois após tanta procura
Por anos buscando a esmo
Surge a amizade que dura
Ser amigo de mim mesmo.

Uma casa é uma casa

Com licença de outros tantos


Que com mais propriedade


Descrevem a realidade


A expressam em seus cantos


Quero dizer no momento


Da vida o que compreendo


O que aflora ao pensamento


Sem floreio, retoque, remendo.



Observe a simples planta


E a beleza que ela traz


Ao lhe dar nome você a faz


Tornar-se algo que encanta,


Ou algo que só suja a rua


Ou sombra pra refrigério


Quer que ela seja só sua


Muitos em um, um mistério.



A planta lhe trás lembranças


De outras tantas iguais,


Umas menos, outras mais,


Desejos, sonhos, vinganças.


A árvore está carregada


Não de folhas, frutos e flores;


Mas da experiência passada


De lutas, ódios, amores.



A realidade revela


Que uma casa, por exemplo,


Não é sepulcro nem templo,


Mas é coisa bem singela


Uma casa é uma casa!


Quatro paredes apenas,


Que o pensamento defasa,


Decorando de dores e penas.



Uma casa não é um lar


Isto é mais do que evidente


O lar se cria na mente


Em qualquer canto ou lugar


Parte da casa ou o total


Parece mais importante


Se num pequeno instante


Se torna fundamental



Um quarto é igual a todos


Na luz ou na escuridão,


Tenha ele cama ou não


Igual de todos os modos


Se o pensar interfere


Enche o quarto de lembranças


Recria mais esperanças


No que cada peça sugere.



Está na casa o defeito?


No quarto ou na cadeira?


Se eu passo a vida inteira


Pensando a seu respeito?


O engano é meu somente


Que não vejo a realidade


E meus olhos simplesmente,


Usam óculos de saudade.

Ode ao trabalho

Se levante, preguiçoso
O sol já veio fogoso
A vida assim se desperta
Mais um dia principia
E acabou-se a regalia
De ficar sob a coberta

Novamente mais um dia
De trabalho se inicia
E o sol lá fora se atiça
Levante da cama agora
Ou vem o mundo e devora
A você e sua preguiça

E ao se levantar se prepare
Pois não há o que se compare
A mais um dia de luta
Encare já sua lida,
Não fique a pensar na vida
Envolva-se na labuta

Não perca tempo pensando
Quem foi o grande malandro
Que se eu souber, não espalho,
Pois vai alguém entender,
Como foi acontecer
De inventarem o trabalho?

Mas note, o trabalho é amigo,
Ouça bem o que lhe digo
Pra alguns é tudo no mundo
Pois de tudo o que não presta
Que você fez, é o que resta
Pra lhe lembrar moribundo

E ainda tem gente que agora
Quer um jeito de ir embora
Ser fiscal da natureza
Mas se o trabalho não mata
E a vida ociosa é tão chata,
Trabalhar é uma beleza.

Ao trabalho então dêem vivas
As pessoas bem ativas
E deixemos de pilhérias
Que enquanto vocês se agitam
Outros como eu, cogitam,
“Quando é que vêm as férias?”

O urubu e o condor

Voa ave altaneira


Corta este céu elegante


Lança sombra pelo espaço


Que o tempo não traz cansaço


A visão tão prazenteira


Deste teu vôo deslumbrante






Xô daqui ave agourenta


De ti só quero distância


Por favor, vai logo embora;


Tua presença me apavora


Tal visão ninguém agüenta


Vieste só de implicância?






Mas porque tanto descaso,


Porque todos mesmo tu


Culpam-me, de a natureza,


Ter me feito sem beleza


Tenho dolo por acaso


Em ter nascido urubu?








Sou urubu com orgulho


E me escuta, por favor,


Que te direi quem eu sou


Do que gosto, aonde vou;


Porque não caço ou mergulho


Porque urubu, não condor.






Não vivo alto nos Andes


Não vôo pra me exibir


Não tenho necessidade


Vivo mesmo é na cidade


Não importa onde me mandes


Vou continuar a existir






De carniça é que eu gosto


Carne podre, gente morta,


Por isso vivo contigo


Sou muito mais seu amigo


Do que o condor, eu aposto;


Estou sempre à tua porta






O condor vive distante,


Não está no teu dia a dia


Não consome do teu lixo


E embora mais belo bicho


Não é companheiro constante


Não tem por ti simpatia






Sou bem mais útil a ti


Do que o condor peruano


Não importam tuas crenças,


Afasto de ti mil doenças


Que se espalham por aí


No lixo do ser humano.






Sendo assim não me desprezes,


Nem me trates com desdém;


Pois se eu sou tão asqueroso


Um ser nojento, horroroso,


É porque vivo de fezes


E elas vêem de ti também.






E tu não és diferente


De mim nesta tua sina


Quando mentes, quando lutas,


Quando vives em disputas,


Imaginas que és gente,


Mas és ave de rapina.

Mil faces

Outro dia olhei no espelho

Confesso, causou-me espanto,


Não pude crer no que via


Nem descrevo o que sentia


Não que me visse mais velho


Ou mais horrível, nem tanto.





Não via nenhuma ruga


Daquelas que já conheço


Só que faltava o sorriso


Pensei “me falta o juízo”.


O real já me refuga”


E isso foi só o começo





Pois você nem imagina


Quão grande o meu desespero


Quando aquela estranha imagem


Como trágica miragem


Sumiu detrás da cortina


Pra retornar bem ligeiro





Só que nesse seu retorno


Nova face ela trazia


Horrenda, terrível, dura,


Com ar de maldade pura


Mas mantinha o meu contorno


E comigo se parecia





Novamente outro susto


Um rosto bem conhecido


Mas que tanto mal traz consigo


Que confesso, meu amigo,


Foi somente a muito custo


Que encarei o refletido





Mas quanto mais males vejo


No meu estranho reflexo


Muito mais o reconheço


Parece comigo do avesso


E pra entender eu pelejo


Tal enigma tão complexo





Do avesso, é o que digo?


Porque não fora de centro?


Se aquilo que vejo no quadro


Parece fora de esquadro


Será porque não consigo


Olhar como sou por dentro?




A figura se agiganta


Quanto mais eu fujo dela


Temo olha-la de frente


Descobrir que não sou gente


Não sou animal nem planta


Mas só uma imagem na tela





Mas porque vivo a fugir


De ver tal coisa medonha?


Porque não olho estas faces


E vejo em mim meus disfarces


Sem medo engano ou porvir


Sem mágoa dor ou vergonha?





Mais outro rosto vem vindo


Já me acostumo a este fato


E identifico os atores


Meus males, desejos, amores,


Volta-me outro sorrindo


Mais simpático retrato





Quanto mais faces eu vejo


Mais me obrigo a entender


Que ao viver esta vida


De luta, suada, sofrida,


Meus horrores, meu desejo,


Me fazem o que sou, eu ser.





Do meu passado fugindo


Jamais desejo encontra-lo


A dor que ele retrata


Por pouco que não me mata


No devaneio que lhes falo,


Nestas mil faces surgindo





Uma a uma reconheço


Ao surgir de imediato,


Sem fazer qualquer empenho


De mim enxergo o desenho


Do que sou, desde o começo


Meu perfil fiel, exato.





E ao me ver sem disfarces


Sem fugir a dor alguma


Compreendo com certeza


O segredo da beleza


De em lugar destas mil faces


Viver somente com uma.

segunda-feira, julho 20

Mendigo

Meio humano, meio bicho,
Surge a figura do nada
E vagando pela estrada
Polui a nossa visão
Vivendo no meio do lixo
Dormindo em plena calçada
Da caridade que é dada
Depende sempre seu pão

Passa o tempo, passa ano,
Parece que nada sente
A tudo parece dormente
Não tem nenhuma ilusão
Mas que diabos, é humano!
Mesmo que nos apoquente,
Não parece, mas é gente,
Precisa consideração.

Não sei se alguém compreende
A importância da existência
Desta vida em falência
Que até nem chama atenção.
O que mais me surpreende
É a humana decadência
Que é um fato em evidência
Neste ser ali no chão

Por isso, meu camarada,
Olham você com horror
Você é o retrato da dor
Expressa a pura verdade
E ao lhe ver na calçada
Por onde quer que se for,
Percebe-se a falta de amor
Do que chamam sociedade

Mas o que é sociedade?
Responda-me se puder
Não é cada homem e mulher,
Eu você, o mundo inteiro?
É sua responsabilidade
A vida de cada ser
Que sobre esta terra viver,
Cada irmão e companheiro?

Note bem a importância
Deste pária subumano
Que entra ano, sai ano,
Insiste em sobreviver
Não ache que é ignorância
Não me rotule insano
Sei que nisto não me engano
Ele é o que pode ser

Não é questão de destino,
Isso é coisa inconcebível
Mas ele é o que é possível
Ser no meio de nós
Quem sabe desde menino
Dissemos-lhe que é horrível
Que melhor fosse invisível
Que calasse sua voz.

Podamos os seus caminhos
Bloqueamos a passagem
Dissemos-lhe “que bobagem
você querer ser alguém”
Nunca lhe demos carinhos
Ou instilamos coragem
Em um coração selvagem
Ainda aberto pro bem

Mas agora ele está morto
Não existe mais, amigo,
E ajuda-lo não consigo
É difícil a salvação
Não almeja mais conforto
Nada quer alem de abrigo
É só mais outro mendigo
Estendendo a sua mão

Pois então, agora atente.
Pra loucura desta vida
Vendo a criatura caída
Na sarjeta, aí contigo.
Com ajuda o indigente
Teria outra saída
E com revés na sua lida
Seria você o mendigo

Passa tempo

Como corrente de um rio
Que nunca volta à nascente
Passam os anos da vivência
Desta minha residência
Neste mundo duro e frio
Onde nada é permanente

Como a chuva fina e fria
Num céu nublado de outono
Despencam do calendário
As datas de aniversário
Que somadas, dia a dia
Resultam em dor, abandono

Mas, é o tempo inimigo?
Posso eu chama-lo assim?
Se cada dia que passa
Derrama na minha taça
Bebida que não consigo
Discernir se boa ou ruim?

Vão-se os anos, passam meses
Num compasso mais veloz
E ao me dar experiência
Amarra minha existência
A um passado que por vezes
Faz sumir a minha voz.

Tal qual a tristes gincanas
De quem termina primeiro
Numa atroz velocidade
Edifico a saudade
Com tijolos de semanas
Que vão passando ligeiro

Os dias então, não se conta
Quando um vai e outro vem
Dão a nítida impressão
De que o próprio coração
Neste balanço desmonta
E vai se embora também

Horas, minutos, segundos
Como a água de um sedento
Escorrendo entre os dedos
Expondo a claro meus medos
E terrores meus profundos
Afloram ao pensamento






Corre o tempo, vai sem pena
E quanto mais ele passa
Mais se chega minha sorte
Face a face encontro a morte
Pronta pra entrar em cena
E me levar como caça

Pra mim então fica claro
Por mais que lute na vida
Que sou sempre um moribundo
Igual a todos no mundo
Não sou melhor, nem mais caro
É a verdade doída

Mas temer o fim é insano
Pois a partir do instante
Em que recebi minha vida
Iniciei uma corrida
Onde cada segundo ou ano
A morte é uma constante

E se estou sempre morrendo
Por força do tempo extinto
A morte é bem conhecida
Sei mais dela que da vida
Pois já esta acontecendo
Agora, e eu nem a sinto

Se este é mesmo o tormento
Do tempo, o que aterroriza
Porque não vê-lo de frente
E aí talvez simplesmente
Vivendo momento a momento
O medo do tempo ameniza

Porque o tempo está passando
Ninguém o pode deter
Assim, não o jogue fora
E a partir de agora
Em vez de o tempo ir contando
É melhor passar a viver

Lama Sabactâni

Nascido sem roupa, sem nome, sem fé
Sem saber ao menos porque estou aqui
Sem nenhum apoio onde fincar o pé
Com fome, com sede, com frio, enfim,
Eu nem imagino porque vivo assim
Preciso de ajuda, então peço a ti

Seria acaso pedir em excesso
Que desses ao menos uma informação?
Se não for abuso então, eu te peço
Me diga a quem reclamar por ajuda,
Se eu peço, peço e peço e nada muda
Que devo fazer pra ter tua atenção?

Quem sabe se eu fosse algum filho pródigo
Que astutamente teus bens dissipou
Quem sabe, talvez conseguisse um código
De com entrar em contato contigo
E então te pedir, por favor meu amigo,
Espia pra ver o estado em que estou

Embora não ouça jamais as respostas,
Eu sei que me escutas, pois surdo não és
Então imagino, me viraste as costas
Não queres saber deste ser infeliz
Mas sinceramente, me dize o que fiz
Pra nesta existência ter tanto revés

Se tinhas pra mim alguma missão,
Talvez importante, onde é que falhei?
Será que minha luta tem sido em vão ?
Não cheguei ao alvo que determinaste?
Quem sabe, meu máximo só não te baste?
O será que ignoro qual é tua Lei?

Preciso de pão, mas me dás serpentes
Preciso de luz, só sombras me dás
Olha meus joelhos, já estão dormentes
De passar mil noites rogando, em prece,
E ver tanta gente que menos merece,
Viver vida boa, tranqüila, em paz.

Se eu fosse a ti totalmente estranho,
Talvez compreendesse porque não te acho
Mas eu não mereço mal deste tamanho,
Que se me acontece é por falta de apoio
Será que ao tirares o trigo do joio,
Jogaste esta espiga pra fora do tacho?

Por que? Por que? Por que? Eu pergunto,
Qual foi o motivo de me deixares só?
Perdoa se teimo insistir neste assunto
Mas é que pra mim está muito difícil,
Viver sempre à beira de um precipício
Com um laço ao pescoço a apertar o nó.

Senhor, senhor, escuta meu grito
Não vejo mais qualquer escapatória
Acalma, te imploro meu coração aflito
Me ampara, te peço com teu forte braço
Entende que se me venceu o cansaço,
Qual é minha culpa em toda esta história?

E que este meu grito permita que, ao menos,
Eu consiga entender que estás comigo,
Que tais grandes males, se tornem pequenos;
E mesmo que eu, já não suporte mais,
Possa ter num único instante de paz,
A plena certeza que és meu amigo

Eu e a lua


Ela tem mistérios como poucos


Dos quais amantes, poetas e loucos


Conseguem tão bem decifrar


Linda, tranquila, pequena


Brilhante que no breu flutua


Insensivelmente serena


Reluzindo na noite, a lua


Me torna sempre a lembrança


De tristes amores sem esperança


Por alguem que como ela


Bela, iluminada, brilhante


É igualmente encantadora


É inalcançavelmente distante


Contradição

Por favor me deixa chorar


Preciso esgotar


Toda a dor da minha alma


Quero chorar até afogar minha esperança


Esse coração que cansado e amargurado


Necessita expulsar cada lagrima que tem guardado



Tenho que rasgar este velho coração


Até que ele não consiga mais reter uma gota de amor


Porque amar é uma contradição


Suas alegrias são a outra face do desespero


Assim viver sem amar é o que espero



Não quero mais amar...


Diz uma antiga canção


O amor me deixa insuportavelmente feliz


E maravilhosamente deprimido


Preciso me sentir querido


Mais que nunca é insuportável ser sozinho



Mas também preciso de ar


Tenho de viver, respirar


Estou condenado à vida


E preciso companhia


Não como um cãozinho na coleira


Mas de um viajante que segue igual caminho



Se eu não chorar tudo que preciso


Não afogar a dor nas lagrimas do coração,


Decerto vou perder o juízo


Todo sentimento terá sido em vão


Mas tenho medo, muito medo


Não me deixe chorar sozinho


Me mostre uma saída, um caminho



Tenho de sair desse deserto


Pelo amor de Deus, fique por perto


Me veja chorar e fique aqui


Do seu carinho, não desisti.


Me escuta desta vez por favor;


Sei que sou contraditório


Mas já esgotei o meu repertorio


De argumentos tentando provar o meu amor

Amor, amizade e paixão

Muito se fala dos três
Amor, amizade e paixão
Tento definir de vez
Sentimentos tão parecidos
Muitas vezes confundidos
Por virem do coração

Paixão, talvez menos nobre
Que nos surge de repente
Que quando a gente descobre
É doença sem solução
Derruba o enfermo no chão
Mas passa, e depois nem se sente

Amizade e amor de outro modo
São vírus mais persistentes
Parecem-se sobremodo
A ponto de serem iguais
Gêmeos dos mesmos pais
Deixam os enfermos contentes

Amizade e amor andam junto
Não podemos separá-los
Sob o risco do conjunto
Um sem o outro não existe
E a vida fica mais triste
Como as rosas sem seus talos

A paixão e a simpatia
Juntaram nós dois, minha querida
Há muito tempo num dia
Feliz encontro ao acaso
E logo, sem mais atraso,
Você mudou minha vida

O amor e a amizade
Cresceram em conseqüência
E duma tal cumplicidade
Quis meu coração escolher
Ser você minha mulher
Por toda minha existência

Os anos se passam um dia
Permanecem em esplendor
Numa mesma melodia
Paixão simpatia amizade
Mas eterno é de verdade
Por você o meu amor

Memória

Se lembra da nossa infância?
Muito tempo se passou
Quase some na distância
A lembrança que restou
E tudo na mente se embola
Brincadeiras e brigas na escola

É tudo assim meio escuro
A gazeta, o pé de manga
A nota baixa, a zanga,
O xixi feito no muro,
O balão que pegou fogo,
A pelada, a pipa rara,
A roubalheira no jogo,
Valendo tapas na cara
Doces aos montes, me lembro,
Nas festas do mês de setembro

Me lembrar custa um bocado
Da menina mais bonita
Que como sempre me evita
Fugindo ao beijo roubado
São poucos minutos apenas
De gratas recordações
Horas de choro às centenas
Briga e castigo aos milhões
A fuga sem dar na vista,
Para driblar o dentista.

“Ah que saudades que eu tenho,
Da Aurora da minha vida,”
Heloisa ou Margarida ?
Lembrar nomes exige empenho
Me apaixonava por todas
As meninas lá da turma
Lindas, feias, magras, gordas
Sonhava com cada uma
Meninos são muito bobos
Cordeiros em peles de lobos

“Da minha infância querida”
Restaram poucos momentos
Poucos cantos, mais lamentos,
Pouca flor, muita ferida.
Mas foi um tempo risonho
E eu cresci, de repente,
E como acordasse de um sonho
Já estava virando gente
Não sei como aconteceu
Mas quando me vi, era eu.

“Que os anos não trazem mais”
Este tempo de beleza
Isto afirmo com certeza
Não volta o que foi pra traz
Mas não choro nem lamento
Pois o tempo que passou
Até que deu novo alento
Tornou-me o que hoje eu sou
O passado é só história
Que se perde com a memória

De vago que ainda resta
Comigo em minha lembrança
Desde o tempo de criança
Muito pouca coisa presta
Talvez eu esteja enfermo
Caso raro de amnésia
E este mal só chegue a termo
Com “Leite de Magnésia”
Solta o cocô do neném
Solta a memória também?

Agora, falando sério,
Não lembro de quase nada
De tanto tempo de estrada
Como lembrar, é mistério.
Mas das coisas que ficaram
Em prova da mente sã
Lembranças que mais duraram
São de você, minha irmã.
Bajulação é o fraco
Do seu irmão puxa-saco

Ana luz

Toda mulher é estrela
Ilumina com seu brilho
Pai, irmão, marido, filho
Amor sua vida traduz
De si tanta graça emana
Sendo por isso tão bela
Obra prima em aquarela
Em toda mulher há luz
Ana Luz
Ana

Toda mulher tem sorriso
Que acende o amor e a vida
Enleva ou deixa caída
A alma de quem seduz
Como em artes de cigana
Sempre nos tira o juízo
Sempre tem uma saída
Toda mulher faz luz
Ana Luz
Ana

Toda mulher ilumina
Como astro de luz própria
O sol sendo mera cópia
Que a natureza produz
Entra mês, passa semana
Minha alegria culmina
Com sua presença menina
Toda mulher tem luz
Ana Luz
Ana

Toda mulher tem um nome
Comum, ou muito singelo
Mais sublime ou menos belo
À lembrança nos induz
Ana, Maria ou Fulana
Repetir não me consome
Não me canso de dizê-lo
Seu nome, mulher, leva luz
Ana Luz
Ana

Toda mulher me inspira
A atos de desatino
Mas por essa me alucino
Muito mais do que supuz
Com sorriso que me engana
O olhar de quem suspira
Reboliça meu destino
Você, mulher cria luz
Ana Luz
Ana

Toda mulher é você
Não importa a quem eu olhe
É o coração quem escolhe
E a lhe ver me conduz
Mas nesta visão insana
Jamais a vida escurece
Você sempre me aparece
Toda mulher é luz
Ana Luz
Ana

Gêmeos

Sempre olhei você vendo sua alma
Não há segredo seu que desconheça
Gêmeos, siameses somos então ?
Pressinto o que passa em sua cabeça,
A sua paz é que me transmite calma
Nascemos unidos pelo coração.

Minha vida corre em sua veia
No seu pulso sinto minha pressão
O que vejo são com os olhos seus,
E seu toque sinto em minha mão
Sua carne à minha se entremeia
Seus pensamentos são como os meus

Minha dor, meu desejo até meu gosto
Nunca foram meus, mas acredite,
Que por sermos assim em quase tudo
Quase me faço crer neste palpite
Que se olhar pra você, vejo meu rosto
Neste meu devaneio tão absurdo

Se existem dois gêmeos com certeza,
Que contenham assim, tal semelhança
Esses dois somos nós, assim iguais
Temos um só coração minha criança.
É daí que eu derivo esta beleza,
De amar a você cada vez mais

A divagar se vai longe


De vagar se vai ao longe
Com calma eu chego lá
Se eu não estiver com pressa
Então a maneira é essa
Andar com passos de monge
Que um dia o que espero virá


Há entretanto outra forma
De minha meta alcançar
Se andando de passo em passo
Me perco no meu compasso
Me guio por outra norma
Que meu passo irá levar

Como alcançar a distância
Que sinto nunca chegar?
Como então marcar o tento
Se desse modo tão lento
Por mais que seja a constância
Infindo é meu caminhar

É a divagar que se vai longe
Divagar, não de vagar
Se de vagar nunca chego
E depressa posso cair

Divagando sei que alcanço
Sou mais ligeiro e não canso
Obtenho seu achego
E tudo o que mais desejar
E não puder conseguir

Divagando em pensamentos
Sonho ao seu lado estar
Sinto falta em tais momentos
Do calor dos teus abraços
Me vejo então solto no espaço
Numa louca alegoria
Imagino lhe abraçar
E quase morro de alegria




Amor, sonho, loucura
É tão bom que seja assim
Divagando a cada instante
Você não é mais tão distante
E nesta ilusão que perdura
Você até gosta de mim

Se vai longe divagando
Que bom é então divagar
Pois se é neste devaneio
Que lhe encontro bem no meio
Que eu passe a vida sonhando
Divagando pra lhe amar