segunda-feira, outubro 31

Desencanto

(Manuel Bandeira)

Eu faço versos como quem chora
De desalento... De desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... Remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.
- Eu faço versos como quem morre.

Chico Buarque

sábado, abril 2

Quem sabe isso quer dizer amor

(Lô Borges e Márcio Borges) [Intérprete - Milton Nascimento]

Cheguei a tempo de te ver acordar
Eu vim correndo a frente do sol
Abri a porta e antes de entrar
Revi a vida inteira
Pensei em tudo que é possível falar
Que sirva apenas para nós dois
Sinais de bem desejo de cais
Pequenos fragmentos de luz
Falar da cor dos temporais
De céu azul das flores de abril
Pensar alem do bem e do mal
Lembrar de coisas que ninguém viu
O mundo lá sempre a rodar
E em cima dele tudo vale
Quem sabe isso quer dizer amor
Estrada de fazer o sonho acontecer

Pensei no tempo e era tempo demais
Você olhou sorrindo pra mim
Me acenou um beijo de paz
Virou minha cabeça
Eu simplesmente não consigo parar
Lá fora o dia já clareou
Mas se você quiser transformar
O ribeirão em braço de mar
Você vai ter que encontrar
Aonde nasce a fonte do ser
E perceber meu coração
Bater mais forte só por você
O mundo lá sempre a rodar
E em cima dele tudo vale
Quem sabe isso quer dizer amor
Estrada de fazer o sonho acontecer

sábado, janeiro 1

Vou me embora

(Paulo Diniz)



Vou-me embora

Vou-me embora

Vou buscar a sorte

Caminhos que me levam

Não têm Sul nem Norte

Mas meu andar é firme

E meu anseio é forte

Ou eu encanto a vida

Ou desencanto a morte...

 

Vou-me embora

Vou-me embora

Nada aqui me resta

Senão a dor contida

Num adeus sem festa.

Eu vou na ida indo

Que o temor desperta

Cuidar da minha vida

Que a morte é certa.

 

Quem disse que trazia

Até hoje não trouxe

O bem de se fazer

da vida amarga, doce.

 

Eu não espero o dia

Pouco me importa

Se o velho é sábio

Se a menina é louca

Se a tristeza é muita

Se a alegria é pouca

Se José é fraco

Ou se João é forte

Eu quero a todo custo

Encontrar a sorte.

 

Vou-me embora

Vou-me embora

E levo na partida

Resolução no peito

Firme e definida

Quem vem na minha ida

Ouve a minha voz

E cada um por si

E Deus por todos nós...